Tecnologia social da memória: como captar a narrativa da experiência

Relações Públicas e Cidadania
21 de agosto de 2012
Negócios em Família
24 de agosto de 2012

Tecnologia social da memória: como captar a narrativa da experiência

As bases conceituais de História Oral são preciosas quando se fala em storytelling vindo da narrativa da experiência – ou seja, histórias a partir de relatos de vida. Afinal, é desta área do conhecimento que está inspirada a ‘Tecnologia Social da Memória’, base para planejamento, captação e registro do storytelling. Trata-se de um conjunto de conceitos, princípios e atividades que ajudem a promover iniciativas de registro de memórias e a ampliar o número de autores na História. Foi organizado em forma de metodologia conjuntamente pela Fundação Banco do Brasil e pelo Museu da Pessoa entre 2005 e 2009. Está disponível em http://migre.me/a36Xu. Neste ínterim, assume-se o que fica da História são sempre narrativas, sejam elas produzidas por atores presentes ou passados.

Segundo Meihy, são três os tipos de história oral: de vida, temática e tradição oral, ainda que em todos os casos se pretenda uma versão dos fatos como impressão subjetiva registrada no inconsciente e expressada com lógica própria da memória. A história oral de vida parte de entrevistas livres, com poucos estímulos oferecidos por um entrevistador junto ao relator, que faz as conexões que desejar dentro de um escopo de trajetória histórica, cujo início, meio, fim e retornos, aleatoriamente arranjados, são inteiramente adequados e com muito espaço para argumentos pessoais. Há uma tendência, nesta modalidade, a ser usada uma linha do tempo e um perfilamento cronológico ou seqüencial, com forte presença de datas julgadas marcantes. Já a história oral temática é muito mais pontual, objetiva, com recortes de assuntos específicos estimulados pelo entrevistador em sessões de entrevistas mais planejadas, porque voltadas para um fim previamente pensado. A tradição oral, por sua vez, trabalha com as continuidades dos mitos e com a visão de mundo de culturas que têm valores filtrados por estruturas mentais transmitidas oralmente.

Existe ainda uma variação da história oral de vida conhecida como narrativa biográfica, que segue um roteiro mais cronológico e factual da pessoa, aliado a particularidades que remetem a acontecimentos julgados importantes. Neste caminho, está a reconstrução biográfica, aplicada em casos em que os narradores não tenham indicações precisas sobre fatos de suas vidas e se valem de recursos oferecidos como recordação de catástrofes, marcos de mudanças na saúde coletiva, falecimentos de autoridades importantes ou de membros da família e amigos.

Há cinco formas principais de narrações: 1) narrativas de vidas públicas, em que políticos, esportistas e artistas contam suas histórias fixados numa imagem a ser zelada, marcadas por factualismos e pouca introspecção, com total foco nas atitudes públicas e não na experiência privada, com forte negociação de discurso; 2) figuras que leem as próprias histórias contadas de maneiras épicas, com evocação de modelos de guerreiros, santos, figuras mitológicas ou personagens de romances; 3) narrativas de vidas trágicas, vindas de pessoas doentes, malsucedidas ou com problemas traumáticos, com desenvolvimento de um relato dramático e ocorrência de choro; 4) narrativas cômicas, com dose exagerada de humor, num estilo de domínio sobre a evocação e numa condução crítica em relação à sociedade e com algum descontrole sobre o entendimento sequencial do relato; e 5) narrativas misturadas, fazendo composição de alguns formatos anteriores.

E há três etapas para a realização de um projeto de storytelling, a saber: construir histórias, organizar histórias e socializar histórias. Primeiro, o grupo é estimulado a produzir narrativas, coletar documentos, fotos, objetos e identificar espaços e construções que considere parte de sua história. Da história individual à história coletiva, o grupo pode usar diferentes ferramentas (entrevistas, rodas de histórias, linhas do tempo, coleta e seleção de objetos, fotografias) para produzir registros que se tornem fontes e referências de sua história. Depois, para que os conteúdos registrados e coletados possam ser utilizados, é necessário organizar a história produzida. A ideia é permitir que o usuário acesse e relacione os conteúdos e estabeleça conexões entre eles. Então, o ciclo se completa quando o conteúdo produzido é socializado. Toda história pressupõe interação social.

Esta é a beleza de uma comunicação organizacional em interface com outras áreas do conhecimento, produzindo processos e efeitos em nome da informação e do relacionamento com os públicos de interesse. Você conhece alguma outra metodologia de captação e difusão de histórias?

Rodrigo Cogo
Rodrigo Cogo
Profissional de Relações Públicas, em atuação na Aberje, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Gestão Estratégica da Comunicação Organizacional, ambos pela Escola de Comunicações e Artes da USP.
Acompanhe:
Tecnologia social da memória: como captar a narrativa da experiência

Comentários

5050