A oralidade como fator de relacionamento: base da contação de histórias

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A oralidade como fator de relacionamento: base da contação de histórias

Os profissionais e pesquisadores em Relações Públicas Marta Martins e Waldyr Fortes falam em seus textos que, com o advento das novas tecnologias, a oralidade ressurge com importância inegável e se torna, no meio corporativo, fator decisivo no relacionamento com diversos públicos, instaurando importantes transformações nos processos comunicativos contemporâneos. Afinal, já fazendo a interface entre a oralidade na evocação da memória, o uso da voz humana, viva, pessoal, peculiar, faz o passado ressurgir no presente de maneira extraordinariamente imediata. A associação entre o poder da palavra e a função do cultor da memória, a partir da tradição de uma cultura oral, revela o imenso poder conferido à palavra, apresentado por uma relação quase mágica que acontece entre o nome e o que é nomeado a partir da pronúncia.

As narrativas são eficazes em estimular resposta dos ouvintes. As histórias excitam a imaginação e geram estados consecutivos de criação de tensão (perplexidade e reação) e de liberação de tensão (insight e solução). O ouvinte, longe de ser um receptor passivo, é levado a um estado de reflexão ativa ao dar suas próprias conexões e significações ao relato evocado.

A linguagem se transformaria num esforço deliberado e contínuo em forma de sinais gráficos, acústicos, gestuais, para dar conta das necessidades materiais e psicológicas dos seres humanos. Pesquisadores apontam a existência de três formas distintas de oralidade: a primária, em que não se tem nenhum contato com a escrita; a mista, onde os sujeitos já convivem com a escritura, apesar de exercer pouca influência no cotidiano; e a secundária em que a apropriação da escrita possibilita a manutenção do oral. Gaudêncio Torquato traz um postulado de defesa do “poder expressivo”, ao lado dos poderes remunerativo, normativo e coercitivo. A intenção foi mostrar o poder da comunicação como fundamental para as metas de engajamento e participação e obtenção de eficácia. Ele explica: “se poder é a capacidade de uma pessoa em influenciar uma outra para que esta aceite as razões da primeira, isso ocorre por força da argumentação”. A proeminência da oralidade é dada pela capacidade para integrar e harmonizar os discursos semântico e estético, com a condição de animar os ambientes, atrair a atenção e a simpatia de ouvintes e interlocutores.

E pensando que a ausência de unanimidade e a multiplicidade de pontos-de-vista e interesses levam pessoas físicas e jurídicas a buscarem consenso e/ou anuência, fazendo uso da lógica, das emoções e da credibilidade, é bom estudarmos a retórica. Aristóteles a define como “a faculdade de ver retoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão”, e desde então várias correntes foram geradas: a) geradora de persuasão; b) como meio de descobrir os formatos de persuasão relativos a um dado assunto; c) faculdade de falar bem no que concerne a assuntos públicos; e d) a ciência do bem falar. Em geral, trata-se portanto da criação e elaboração de discursos com fins persuasivos, tendo como elementos fundamentais seu estatuto metodológico, seu propósito, seu objeto e o seu conteúdo ético. O uso responsável ou não das técnicas persuasivas é escolha do orador, e não condição imbricada na retórica.

Dentro dos estudos do discurso organizacional, aqui entendido por “conjunto de práticas linguísticas, semânticas e retóricas das pessoas jurídicas” no conceito de Tereza Halliday, fica evidente a intenção de influenciar percepções e o fluxo dos acontecimentos pela retórica, desde declarações de missão e visão, memorando interno, campanha publicitária, programa de patrocínio cultural até sites, entrevistas de porta-vozes, rituais cerimoniosos e mesmo desenhos de marcas. Mas a nova questão é pensar sobre a efetividade destas emissões ou mesmo interações comunicacionais num universo de abundância, em que a aderência do conteúdo gere reflexão e conhecimento entre os interlocutores. Nesta perspectiva é que formatos como storytelling podem ser preciosos na garantia da atenção, num primeiro momento, e de estímulo à legitimação na sequência. A contação de histórias faz transcender o conteúdo estrito da mensagem transmitida e gera repercussão. O empenho da ação retórica é apresentar razões satisfatórias, capazes de gerar boa vontade, levar interlocutores a se identificar uns com os outros, resolver ou suavizar conflitos e facilitar negociações.

Como a preocupação não deve estar apenas na mensagem a ser transmitida, mas sim na forma, Martins e Fortes vêem reconhecimento crescente da importância do discurso, da retórica e da oralidade como fatores que podem distinguir a comunicação organizacional com públicos estratégicos. O discurso e a retórica organizacional requerem configurações individuais e de integração grupal. Estas características igualmente envolvem a personalidade, a motivação, a liderança e a satisfação dos públicos. Num mundo de tantas (inter)mediações, é bom voltarmos os olhos para a comunicação oral.

Rodrigo Cogo
Rodrigo Cogo
Profissional de Relações Públicas, em atuação na Aberje, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Gestão Estratégica da Comunicação Organizacional, ambos pela Escola de Comunicações e Artes da USP.
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