A Copa e a bipolaridade brasileira

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A Copa e a bipolaridade brasileira

Quando o dono do maior haras americano tomou a decisão de sacrificar seu principal cavalo puro sangue, após quebrar uma perna, o assistente do treinador interferiu evitando que ele cometesse aquele sacrifício ao animal. Dias depois, o assistente foi procurado por outro tratador que lhe ofereceu emprego de treinador oficial. Ele quis saber por que, mas foi indagado: – porque você salvou aquele animal?

– porque não se destrói um passado glorioso, simplesmente por um fracasso. Aquele cavalo foi campeão, trouxe muitas alegrias e lucro para seu dono, mas iria ser eliminado sem o respeito que merecia. Senti que deveria cuidar daquele cavalo com o amor e respeito que ele merece. E o tratador concluiu: – é por isso que quero contratá-lo.

Inspirado no filme Alma de Herói

A Copa do Mundo do Brasil alcançou pleno sucesso, cumpriu e realizou tudo, desde os sentimentos mais singelos como a paixão pelo futebol, a emoção, a alegria, a confraternização entre os povos, até os interesses promocionais, comerciais e algumas vezes escusos.

Foi muito bonito ver as manifestações de alegria, com o colorido das bandeiras, das fantasias, das pinturas nos rostos, com uma imensidão de sorrisos, expressões faciais, caretas de emoção pela vitória ou derrota, pelas brincadeiras e até a inacreditável harmonia entre pessoas e grupos de torcidas adversárias. A cada jogo, os brasileiros se juntavam nas ruas e estádios para recepcionar e apoiar as torcidas dos outros países. Além da capela do hino nacional, a torcida brasileira coloriu todos os estádios com as cores verde e amarela e entoou seu canto oficial “com muito orgulho, sou brasileiro…”.

Durante a Copa, o povo brasileiro cumpriu sua missão de encantar o mundo, de mostrar que se trata de um povo encantador, hospitaleiro e solidário. Para o mundo, a nação brasileira cumpriu seu papel, fortaleceu e reforçou a imagem do país em todo o planeta.

 

Mas não foi só isso

A Copa do Mundo também expõe, de maneira inequívoca, as reais condições, comportamentos, atitudes e problemas do país que a realiza. A principal constatação, da qual derivam todas as demais análises, é a bipolaridade de comportamento da população brasileira. Que vai de um extremo ao outro, sem nenhuma hesitação, razão ou bom senso, muitas vezes num mesmo tema, variando apenas o foco.

Tivemos três níveis de reações: antes da Copa, durante a copa, e depois da derrota do Brasil para a Alemanha.

O primeiro foi, meses antes, com os movimentos de contestação, demonstrando uma nação viva, reivindicando seus direitos e se posicionando contra o status quo e a própria Copa, considerada desnecessária, inviável financeiramente com desperdícios de gastos públicos. Esse movimento teria sido muito mais forte se não tivéssemos a presença de invasores e dos black blocs, numa demonstração inconteste de distúrbio emocional e psicológico.

A segunda reação foi com a chegada das seleções e o início dos jogos, estendendo-se para até quase o seu final. Esperava-se sim que a população tivesse esse tipo de manifestação, porque somos o país do futebol, os melhores do mundo, pentacampeões. Esse segundo movimento foi grandioso e bonito evidenciando as melhores características da nossa cultura.

Mas ele durou pouco, apenas enquanto a seleção brasileira se manteve na disputa. Apesar da imprensa apontar deficiências e erros da seleção, ela também adotou o movimento pró, mostrando e incentivando a população para participar e curtir de todos os movimentos. Inclusive, dando extremo e perigoso destaque ao episódio Neymar com sua saída forçada, por uma jogada considerada desleal. Foram três dias inteiros numa campanha de endeusamento a Neymar e de satanização de Zuñiga, com o pedido de severa punição.

Mas bastou a seleção sofrer a primeira derrota, considerada humilhante, para que a bipolaridade se manifestasse com toda sua força, saltando de um extremo ao outro e sendo praticada, por muitos, com a síndrome dos Black blocs, nas redes sociais e na própria imprensa. Essa característica bipolar já havia ocorrido algumas vezes, com as vaias e xingamentos à presidente Dilma e durante os jogos, que apesar de toda festa e alegria, quando o jogo permanecia sem gols ou sem jogadas atraentes, as vaias surgiam implacáveis.

Uma comprovação inequívoca da mudança bipolar, reflexo da derrota do Brasil, ocorreu no jogo entre a Holanda e Argentina, no qual, pela primeira vez, não se viram as manchas verde amarelas dos uniformes brasileiros, nem suas fantasias e pinturas nas faces e muito menos se ouviu o canto oficial “com muito orgulho, sou brasileiro…”.

No jogo Brasil e Holanda, houve uma trégua parcial com a capela e a repetição do canto oficial da torcida. Ficou, no entanto, o gosto amargo do quarto lugar justo para a seleção brasileira que se despediu com vaias de humilhação e desprezo.

Porém, foi entre esses dois jogos que ocorreu o momento em que se fez sacrificar o cavalo puro sangue, sem piedade nem respeito a sua dignidade. Nesse caso, nem tivemos um defensor que pudesse evitar o linchamento púbico.

Não estou falando em suavizar a derrota ou ignorar os erros e a situação catastrófica que vive o futebol e suas instituições. Estou falando do comportamento equivocado da mesma população que se pintou, se fantasiou e cantou seu canto oficial, mas que se transformou, foi para as redes sociais, em reportagens e programas para desacatar e desrespeitar a dignidade dos mesmos jogadores que estavam sendo ovacionados e a comissão técnica, que por mais incapazes que tenham sido, não mereciam tantas e desrespeitosas ofensas pessoais e humilhações. Nunca vi em toda minha vida um movimento de humilhação maior que esse, com ataques, críticas diretas e achincalhamento pessoal, em tantas imagens, textos e palavras.

Enquanto representantes de outras nações apoiavam, reconheciam o valor e a importância histórica do Brasil, os nossos representantes, como verdadeiros black blocs, achincalhavam direta e individualmente os integrantes da seleção. Em destaque, Fred, Thiago Silva, Marcelo, Julio Cesar e o técnico Felipão foram vergonhosa e publicamente humilhados em suas honras.

Ao contrário disso, vimos torcidas dando exemplos de valor e cidadania, apoiando e recebendo seus jogadores de volta aos seus países, como a Espanha, Inglaterra, Portugal, México, Uruguai e Colômbia. Aqui, essas torcidas apoiaram inúmeras vezes o Brasil como seu segundo time.

O exemplo alemão

A maior demonstração foi dada pelos próprios jogadores alemães, que por respeito à seleção brasileira pactuaram nos vestiários, tirar o pé para não fazer mais gols. Eles já tinham feito isso no jogo com os portugueses. Comparem os dois tempos daquele jogo e vejam que poderiam ter dobrado o placar. O jogador Podolski, não se cansou de tuitar elogiando o Brasil, sua terra, seu povo, agradecendo, apoiando e incentivando a seleção em seu derradeiro jogo.

Até a população da Holanda manifestou-se a favor da vitória brasileira no jogo contra eles próprios porque sentiam que os brasileiros precisariam mais dela, uma vez que recuperariam parte de sua dignidade perdida, pela sua honrada história e por sediarem a Copa.

O jornalista Matthew Futterman, do Wall Street Journal escreveu após a derrota: “World Cup: Brazil Is Going to Be Just Fine. Don’t Buy the Idea That Rout to Germany Will Leave a National Scar.

Se no mundo externo pudemos constatar tudo isso, não podemos dizer o mesmo sobre nós mesmos.

O maior massacre contra os brasileiros não foi a derrota de 7 a 1 para os alemães, foi a dura e irresponsável reação aplicada individualmente contra os integrantes da seleção brasileira, nas redes sociais e pela imprensa, sem a menor cerimônia. Repetindo os mesmos abusos, erros de intolerância e desrespeito com retaliações aos jogadores e à comissão técnica, numa destruição implacável com as mesmas características do vandalismo dos black blocs nas manifestações de rua.

O ápice dessa história ocorreu numa matéria da Jovem Pan, na noite de sexta-feira, dia 11.07, em que o jornalista Rodrigo Viga, correspondente da rádio no Rio de Janeiro, deu o maior exemplo desse tipo perverso de atitude, conduzindo uma reportagem vergonhosa, atacando vários jogadores e comissão técnica, em especial o Felipão, Thiago Silva e David Luis. Fica o aviso para David Luis, que mesmo tendo sido antes reconhecimento como grande caráter e um dos melhores da seleção, foi chamado no ar de estrambelhado (sic), cabeludo e perdido.

Para um jornalista escolhido para substituir o grande Israel Gimpel, que jamais teria esse tipo de comportamento ou falaria tais coisas, demonstrou que não está pronto ou é digno de ocupar esse lugar.

Parabéns jogadores, parabéns comissão técnica, parabéns Felipão, vocês fizeram o melhor do que estava ao seu alcance. Fizeram o melhor pelo que estavam preparados.

Agora que a Copa acabou temos que nos reconstruir. Se no futebol temos que pensar em novas estruturas e novos conceitos, como pessoas temos que fazer a nossa reflexão autocrítica para eliminar a instabilidade emocional, alcançar o equilíbrio e a consciência, reconstruir nossos conceitos de valor e respeito mútuo, na esperança de ser feliz e fazer o outro feliz.

Senão, também não seremos nunca mais campeões mundiais e nem hexacampeões.

Flávio Schmidt
Flávio Schmidt
Sou Relações Públicas por formação, trabalho e paixão. Esses três aspectos estão sempre presentes em todas as coisas que faço. A formação me dá uma condição diferenciada sempre que preciso fundamentar qualquer posição diante de situações pessoais e de trabalho. O trabalho contínuo me deu muita oportunidade de testar e checar os seus fundamentos e a experiência que pude desenvolver ao longo desses tantos anos de atividades. Mas a paixão por Relações Públicas é que me fez mover e intensificar tudo ao meu redor.
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